Mercado reforça aposta em Selic mais próxima a 7%

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O mercado financeiro esperava que a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) confirmasse o tom do comunicado da decisão da semana passada. E a expectativa não foi frustrada. O documento deu argumentos para investidores ampliarem apostas em queda dos juros, o que levou as taxas em toda a curva de juros da B3 a um ajuste de baixa. O movimento foi ainda mais intenso nos vértices de curto e médio prazos, mais sensíveis ao sentimento para a política monetária.

Operadores ampliaram fichas na possibilidade de corte de 1 ponto percentual da Selic em setembro. A probabilidade embutida na curva de juros da B3 passou de 60% na segunda-feira para 72% ontem. A Selic projetada nos contratos para o fim deste ano está em torno de 7,6%.

Pouco menos de 1,3 milhão de contratos de juros DI de um dia trocaram de mãos. Considerando dias de ata do Copom, é o menor giro desde a divulgação da ata de janeiro, ocorrida no dia 17 daquele mês. O volume modesto refletiu um mercado que de certa forma já esperava que o colegiado do BC mantivesse a porta aberta para mais reduções do juro. Por outro lado, o reforço na precificação de queda da Selic em 1 ponto no próximo mês se deveu à interpretação de que o Copom foi ainda mais explícito ao sinalizar que, mantidas as atuais condições, haverá repetição do alívio monetário.

Essa “clareza” do BC foi entendida como um indicativo de que a Selic terminal deve ficar na casa de 7% ao ano. “O Copom não estaria sinalizando corte de 100 pontos-base na próxima reunião se não tivesse espaço que permitisse isso na extensão do ciclo”, afirma a economista-chefe da ARX Investimentos, Solange Srour.

Na mesma linha, o economista-chefe do UBS no Brasil, Tony Volpon, diz que o BC está “claramente” puxando as estimativas para a Selic do fim de 2017 para baixo de 8%. Volpon, que foi diretor do BC, classifica essa atitude da autoridade monetária como “incomum” e acrescenta que o Copom deu uma orientação “supreendentemente inequívoca” no sentido de outra redução de 100 pontos-base no encontro de setembro. Além de ter reiterado na ata o ambiente externo “favorável” e o comportamento da inflação, Volpon considera que, para o Copom, o “recente aumento de incerteza quanto ao ritmo de implementação de reformas” não é visto como um risco material.

Algumas instituições financeiras que estavam à espera da ata ajustaram projeções.

O Itaú Unibanco, por exemplo, passou a ver corte de 1 ponto em setembro e Selic de 7,25% até o final de dezembro. Antes, a maior instituição financeira privada da América Latina estimava redução de 0,75 ponto e juro básico de 7,50%, respectivamente. “A reunião de política monetária de setembro acontecerá dias depois da divulgação de dados relevantes – especificamente, o PIB do segundo trimestre – que dificilmente convencerão as autoridades de que as condições econômicas se desviaram muito do cenário base, o que então deve fazer com que mantenham o ritmo de 1 ponto”, afirma a equipe de análise macroeconômica do banco, chefiada por Mario Mesquita. Mais à frente, Mesquita – ex-diretor do Banco Central – acredita que chegará a hora de o BC preparar o mercado para uma flexibilização monetária “substancialmente mais lenta”. Com isso, o economista prevê corte de 0,5 ponto do juro nas reuniões do Copom de outubro e dezembro.

Em processo de revisão de cenário, o Santander Brasil entende que, até o momento, o aumento da incerteza não pressionou de forma mais visível dados de atividade. Anteriormente, a instituição via a Selic em 8,5% ao fim do ano.

Mais ousada, a Infinity Asset passou a estimar juro de 7,25% para o fim deste ano e de 6,5% para 2018. A projeção do ano que vem é menor que o prognóstico mais baixo mostrado pela pesquisa Focus divulgada nesta semana, que traz Selic mínima de 7% em 2018.

Do time que manteve os cenários, o Nomura continua a ver juro terminal de 7,5%, com novo corte de 1 ponto da Selic em setembro. João Pedro Ribeiro, estrategista do banco para a América Latina, pondera que uma desaceleração para 0,75 ponto continua como “possibilidade”. Ribeiro entende que o atual ritmo já é rápido, considerando padrões históricos, e lembra riscos associados a temas políticos e às reformas econômicas ao longo dos próximos meses. “Porém, não esperamos mudanças significativas no ambiente muito benigno para a inflação a partir de agora até setembro”, afirma.

O mercado aguarda para hoje a votação, pela Câmara dos Deputados, de denúncia da Procuradoria Geral da República (PGR) contra o presidente Michel Temer. Um resultado favorável ao governo é o cenário-base do mercado, o que, se confirmado, pode oferecer impulso limitado aos preços dos ativos domésticos.

Uma maior cautela antes da votação acabou dando fôlego ao dólar. No fechamento, a moeda subiu 0,24%, a R$ 3,1257. O mercado viu oportunidade de compra quando a cotação bateu R$ 3,1076, mínima desde 17 de maio – última sessão antes da deflagração da crise política. O ambiente menos favorável a risco lá fora também pesou. No fim da tarde, o dólar subia 0,5% ante o peso mexicano e 0,6% frente ao rand sul-africano. Antes, a moeda operava em queda em relação a essas divisas, bem como ao real.

Por Valor Econômico (http://www.valor.com.br/financas/5063814/mercado-reforca-aposta-em-selic-mais-proxima-7)

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